2 de mai. de 2012


OPINIÃO


Fatos curiosos e contraditórios acontecem, e às vezes passam despercebidos. Vou dar exemplo de um que tá passando batido. Não por mim.
“Bob Dylan se apresenta no Brasil”. Normal. Normal pra quem o acompanha desde o começo dos anos sessenta e conhece a maioria de seus discos que não são poucos. Mas pra chamada “galerinha” que acha muito legal ser fã desse cantor, isso é o máximo. Não importa que ele vá fazer 71 anos nesse mês. Tem fã novo disposto a pagar qualquer preço pra não perder o show dessa lenda viva e depois não correr o risco ser alvo de discriminação dos colegas por ter ficado de fora desse acontecimento ímpar.







“Buddy Guy irá se apresentar em terras tupiniquins”. Absolutamente normal. Já passaram por nosso país uma incontável quantidade de artistas ligados ao blues desde muitas décadas atrás e na platéia se encontravam habitualmente, admiradores desse estilo musical quase centenário. Mas Buddy Guy não é normal. Esse guitarrista e cantor de 76 anos é imperdível mesmo que não se conheça um disco inteiro dos mais de trinta que ele gravou. O que interessa é que ser “blueseiro” e fã desse velho negro americano é um dos baratos do momento. A molecada vai se misturar aos velhinhos curtidores de blues que querem conhecer esse artista pessoalmente depois de ter ouvido seu longo trabalho disco a disco desde o início dos anos sessenta e depois vai contar pra todo mundo.







E se o Neil Young, esse cara de 67 anos, vier se apresentar aqui esse ano? Na certa haverá um colapso. Afinal, trata-se de um ídolo que  já extrapolou o status de lenda. O que será que vem depois de “lenda”? Tem que se pensar numa denominação mais nova. Lenda já é palavra em desuso. O fã de plantão não pode nem pensar em perder um show desses.
Na realidade, o que acontece de fato, é que faltam ídolos novos e vivos que se apresentem em nosso país e que atraiam a essa juventude carente, e também a esses velhos chamados dinossauros que curtem o country, o rock e o blues para que esses dêem descanso aos Bob Dylans, Buddy Guys e Neil Youngs  e coloquem gente nova na condição de ídolos de verdade, não fabricados.








Aí chegamos à questão fundamental desse texto. Uma grande parte desses jovens, fãs “incondicionais” dessas lendas, não se sentem à vontade quando tem que ficar lado a lado com os velhos enrugados, carecas ou grisalhos, verdadeiros apreciadores desse tipo de artista, e como se não bastasse, ainda acham divertido ridicularizar esses verdadeiros fãs, pessoas que ajudaram muito na manutenção do sucesso desses ídolos, dando sustentação para que eles se mantivessem na ativa até os dias de hoje e dessem a chance de serem conhecidos e apreciados por essa mesma juventude que se acha esperta e que muitas vezes contraria a proposta daqueles a quem se declaram fãs incondicionais e em atitudes contraditórias se tornam discriminadores e racistas, e o que é pior, O fazem sem perceber. Isso me preocupa e me deixa triste e decepcionado. Bom show pra vocês, rapaziada.




(É claro que você não está incluído nesse contexto)


Zé Vicente 02.05.2012


2 comentários:

Marcelo disse...

Seu texto me fez lembrar um episódio: um "garoto" chegou pra mim e perguntou - Marcelão me fala aí umas bandas de rock que eu possa ouvir. Pacientemente sem paciência respondi - que tal Guns N Roses, Faith No More, Led Zeppelin, Metallica ou Black Sabbath? Ele me respondeu: essas aí eu já tenho. Tenho Sweet child O'Mine, tenho Stairway to Heaven, tenho One, ou seja, pra ele uma música de cada banda já é o bastante. Ser fã assim é muito fácil e extremamente idiota! Concordo com seu texto e paciência com a rapaziada dessa praia, eu já não tenho mais. Lastimável!

Antônio Altvater disse...

Há uma linha muito tênue entre essa juventude e uma futuro interesse de "verdade" para com a música. Uma geração criada na década do mp3 e da velocidade da informação, dificilmente desperta a curiosidade pela magia que envolve a música de outros tempos. Me sinto privilegiado por um certo JVL ter acreditado na minha curiosidade musical e ter me influenciado tanto no músico que sou hoje. Acho válido o interesse por lendas vivas, mas vislumbro que temos a possibilidade de criar e fortalecer novos ídolos. Grande abraço Zé