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28 de set. de 2015


LITERATURA

TRAVESSIA

 
 

 

 
"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
 
É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."

 

Fernando Pessoa

 

 

 

(Marcelo)

4 de fev. de 2015


UMA ESQUINA...UM POEMA

 

 


 
 

PEDIDO

 

 

Assim como o café pede o cigarro

A viola o violeiro

O pão a manteiga

A goiabada o queijo

 

O carro a estrada

A estrada o caminho

A escrita a palavra

O samba o Paulinho

 

A bola o gol

A doença o remédio

Eu saber quem sou

A construção o prédio

 

A guitarra o acorde

O só a solidão

A vida a morte

A prisão a amplidão

 

A lua a estrela

O navio o mar

O alto a ribanceira

O ato se consumar

 

A pipa o céu

A linha a caneta

A noiva o véu

A porta a maçaneta

 

A poesia o Zé

A lenha o fogo

O sapato o pé

A galinha o ovo

 

A piscina o mergulho

O peixe a água

O nóia o bagulho

O amor a mágoa

 

O ébrio a cerveja

O mendigo a esmola

O fiel a igreja

O dedo a argola

 

Eu peço você

Seu corpo e a cama

Pra viver tudo aquilo

Que todo mundo ama

 

 

Marcelo – 03/02/2015

16 de out. de 2014


UMA ESQUINA, UMA CRÔNICA

RELACIONAMENTOS MODERNOS

 

 

 

 

O rapaz se casa com a menina que ele julga ser a companheira ideal até o fim dos seus dias. Logo em seguida é visto saindo e entrando e saindo e entrando em motéis e motéis com aquela que ele invariavelmente chama de vadia, enquanto a bela moça em casa o aguarda diante do jantar que lentamente esfria.

 

A mulher é esposa do homem dedicado, e vez ou outra responde mensagens lascivas em seu celular, vez ou outra aceita caronas mais lascivas ainda e vez ou outra se deita com o quase desconhecido apenas para se sentir desejada, enquanto o marido em casa apenas sonha com a mulher dedicada.

 
 
 

Marcelo

29 de jan. de 2014

UMA ESQUINA, UM CONTO
ZÉ E O SACRÁRIO
 
 

 
 
Certa vez, o sacristão de uma igreja notou que todo dia, sempre no mesmo horário, um homem de vestes humildes, de aparência pobre entrava na igreja, se aproximava do sacrário, dizia algumas palavras e ia embora. Tal situação se repetiu por dias e dias. O sacristão, além da curiosidade, passou a se preocupar com aquilo, já que no altar da igreja e no sacrário haviam peças de valor. Então, perguntou ao homem o que ele vinha fazer na igreja. Eis que o homem lhe respondeu: venho orar! E o sacristão retrucou:
 - É estranho que você consiga orar tão depressa!
- Sou homem de pouco estudo! Eu não venho recitar orações cumpridas, mas gosto de entrar aqui todo dia e dizer: oi Jesus, é o Zé, vim visitar o Senhor. E num minuto já estou de saída. É uma oraçãozinha! Mas tenho certeza que Ele me ouve.
Dias depois, Zé sofreu um acidente e precisou ficar internado. Logo, passou a exercer uma grande influência sobre todos da enfermaria, os doentes mais tristes ficaram alegres, apresentavam melhoras expressivas. Uma enfermeira notou que naquele horário, todos os dias, aquela situação se repetia, a alegria tomava conta do local e começou a se perguntar por quê.
- Por que o senhor está sempre tão alegre?
E Zé explicou:
- É por causa daquela visita que recebo todo dia!
A mulher ficou atônita. Ora! Havia uma cadeira ao lado da cama do Zé, mas sempre vazia. Ele era um homem solitário, sem ninguém, que não recebia visitas. E continuou:
- Visita? Quem visita o senhor?
E os olhos do Zé brilharam quando ele respondeu:
- Ah! Ele vem. Fica aqui, sorri e me diz: oi José, eu sou Jesus, vim visitar você!
 
Domínio Popular – Interpretação livre
 
Marcelo (um pouco de fé não faz mal a ninguém)

8 de ago. de 2013

LITERATURA




















QUASE

Esse quase constante
Deprime,
Mata perspectivas,
Coloca objetivos
À deriva,
Corrói o orgulho,
Muda o sentido do otimismo,
Força a consciência
De que o certo
Nem sempre é ser bom,
E que a sorte
Nunca segue caminho reto.
O caráter,
Figura de retórica,
É lembrado na hipocrisia
E a filosofia
Não permite o riso,
Assim como as contas
Não são pagas
Pela ideologia.
O distraído acha o tesouro
Sem mapa
E o tolo quase sempre
Sente o êxtase do prazer
Enquanto o consciente
Tropeça nas palavras
E é obrigado a questionar
Suas certezas.
As coincidências
Não ajudam os justos
E as sinas, invenções religiosas,
Maquiam o azar
O quase
Sempre à margem do tempo
Insiste em estampar frustrações
E mostrar egos em espelhos
Que não refletem
A vontade da carne
Os tiros pela culatra
Ecoam pelas almas
E as frustrações se multiplicam
Enquanto a vida segue.
O caminho entre muros
Não tem retorno
E a verdade reflete o erro.
Quando dá tempo de cansar
Muda-se o lado
Mas sé já for tarde
Cai-se no anonimato
Recolocar as pedras no tabuleiro
É necessário
Mas a vida não é um jogo
Quando foi ver,
O tempo já passou
E nem a esperança da volta
Justifica o que se perdeu.

ZÉ VICENTE

18 de mai. de 2013

LITERATURA















Controle

(Para Ian Curtis)

Quem sabe
Realmente
Medir os sentimentos
De um homem?

Quem pode
Avaliar
Com certeza
O tamanho
De seus conflitos?

Quem encontrará
A razão
Para a angústia
De suas
Dúvidas?

Quem possui
O dom
De juntar
As partes
De um coração
Dividido?

Quem terá
A coragem
De atirar
A primeira
Pedra?


Zé Vicente 



4 de abr. de 2013

LITERATURA













Esse texto foi dedicado ao meu amigo e parceiro de Papo de Esquina, Marcelo Silva. 
Está fazendo 10 anos que foi escrito e só agora está sendo publicado.         

                                 NOITE



Me fale da noite,  caro poeta
É só o que te peço nesse instante
Você que sabe da magia, dos mistérios,
Do medo e do fascínio que ela exerce
No coração e na mente dos solitários,
Que se deixou envolver por ela tantas vezes
Ao tentar a cura para  a sua angústia
Em seus momentos de desespero,
Me fale um pouco dessas noites.
Talvez assim eu consiga entender
Um pouco mais a respeito de mim mesmo
E das coisas que me atormentam.
Por favor, poeta
Me deixe beber um pouco em sua fonte,
Saber do seu chôro contido
Em noites de morte ou decepção,
Do seu pavor
Em noites longas de temporal,
E riso, em noites entre amigos
Ou carnaval.
Que músicas você ouviu,
O que leu, o que assistiu
Para  atenuar a dor no peito
Ou aumentar sua raiva nessas noites.
Me diga se você xingou,
Quantos cigarros fumou,
De quem mais sentiu falta
E quantas você tomou
E, se quiser, até sobre quem amou.
Me dê uma chance, caro poeta
Meu peito dói, mas eu peço
Me fale um pouco da noite.
Antes que amanheça e seja tarde.
Me fale dos bêbados felizes
Das putas e dos viciados
E de outros infelizes que encontrou,
Das traições, das brigas, das mágoas
E das pessoas que tentaram em vão
Te consolar pelas mesas dos bares
Nos piores momentos.  
Me fale das noites no exílio
Das viagens de trem, o barulho dos trilhos
E dos riscos de luz do lado de fora, no frio.
Perdoe a minha insistência
Mas você pode me mostrar uma saída.
O tempo passa rápido e as respostas não vem
E essa angústia que me aperta
Me leva a te pedir de novo
Fale comigo a respeito da noite
Fale das caminhadas sob o sereno,
Dos cochilos nos bancos de jardim
Das corujas, dos lobos e dos vampiros
E da lua cheia que clareou sua inspiração.
Me fale dos amigos.
Espero que não me condene
Nem é a salvação o que procuro
Só quero saber mais a respeito da noite
Para tentar controlar meus impulsos
E tirar dela a energia que preciso
Compartilhar meus melhores momentos
E confessar a ela meus segredos.
Apenas dormir, seria desrespeitá-la
E seu silêncio precisa ser ouvido pela alma
E você, poeta
Sabe decifrar os pensamentos,
Então, humildemente te peço
Fale comigo a respeito da noite.
E então estarei certo que
Apesar da solidão do meu corpo
Meu espírito não estará só.

E a noite é apenas
Um lado da Terra sem sol
Ela às vezes é longa,
E às vezes, curta
Depende que quem a vive
Mas sempre vai embora, 
E sempre retorna
E o sofrimento de quem a espera
Está justamente no intervalo,
Que é o dia.

    
                           (Para Marcelo)

                           José Vicente de Lima                                                                                           

      Abril de 2003


Zé Vicente

23 de mar. de 2013

LITERATURA






Efêmero

Então você resolve ser do bem
E isso nem tem a ver com família
Seus pais querem o tempo todo
Que você se alimente direito
Que estude e tenha um emprego
Não importa o curso que você faça
Nem o emprego que você consiga
Ninguém se preocupa com 
Sua cabeça, por exemplo
Que tipo de livro você lê ou,
Que desejos secretos você tem
Sua família não te molda,
Mesmo que nisso você acredite
O caráter vem com você
Vem do útero, num corpo sujo
De dor e placenta
E a convivência te faz pegar hábitos
O que faz meu pai
O que minha mãe aguenta
Em que meus irmãos se parecem
Não comigo, mas com meus pais
E absorvo ou jogo fora
Separo o que interessa
Você aprende é lá fora
Na rua, no meio do povo 
Você vê sofrimento, angústia
Conhece pessoas, situações
E começa a perceber que aí
Começa a perder
Se escolher o lado bom
Consciência, caráter, índole
Doenças do bem
Irão te atrapalhar
Não ficarás rico, nunca serás bonito
Os dias nunca serão seus
Os dias serão curtos, as noites longas
E, só com sorte, haverá o amor
E logo vão te perceber
E irão te procurar, e você, 
Sempre procurará ajudar
E terá esperança de mudar
Mudar pessoas, mudar o mundo
E o tempo passa
E chegam as consequências sobre 
A mente cansada, o corpo cansado
A alma nunca estará lavada
Mas tem um rim prejudicado
Uma úlcera no estômago
Um caroço em algum lugar
Que te fará chorar calado
Nas noites sem fim de solidão
E angústia
E o tempo terá passado
E sua juventude levada
Você não mudou pessoas 
Não mudou o mundo
O mundo te absorveu
E tirou de tí tudo que podia
Enquanto o mal prosperava.

Zé Vicente 


16 de fev. de 2013

LITERATURA

















Poder

Podemos ser o que somos, ou
Mostrar que somos o que não somos,
Podemos fingir, dissimular,
Enganar.
Podemos inclusive, nos enganar,
Ou pensar que enganamos.
Nos enganamos.
Podemos usar a filosofia,
Abusar da hipocrisia,
Dizer sim ou não,
Colocar ao nosso redor
A redoma da religião.
Podemos usar de dia, a moral
E à noite pensar no mal.
Esconder nossos defeitos,
Negar nossos instintos,
Camuflar nossos desejos secretos,
Sermos discretos.
Podemos querer parecer certos
À vista dos tolos incrédulos,
Fingir não se importar com sexo,
E acreditar que isso tem nexo.
Podemos esconder o prazer,
E na solidão do quarto, sofrer.
Podemos querer o poder,
Ser egoísta sem perceber,
Esquecer a simplicidade do ser,
Podemos por tudo a perder.
Perdemos ao sermos radicais
Quando podíamos ser normais.
Tudo é válido, a vida é curta
O mundo é grande
A morte é certa.
Podemos acordar pra realidade
Encarar a vida sem preconceitos
Dividir os direitos, achar jeitos.
Procurar laços estreitos.
Podemos amar sem censura
Pensar que na vida,
Não há limites para a procura,
Podemos modificar
A nossa própria estrutura.
Prestar mais atenção à natureza
Por as cartas na mesa
E encontrar em nós mesmos
A verdadeira certeza.

Zé Vicente 


6 de jan. de 2013


UMA ESQUINA, UMA CRÔNICA
BREVE ROTINA










-Acho que ele sai 05h40 de Calmon, não tenho certeza! Merda! Tô atrasado de novo, mas também porque não passei essa porra de camisa ontem à noite?
-Tá meio frio, não sei se levo blusa ou ponho uma camiseta por baixo da camisa, à lá Renato Russo...
-Enfim, cheguei na estação!
-Aquele cara tava aqui ontem, mas a cara dele estava melhor...tá parecendo que não dormiu! Bom, vai ver que a esposa não deixou...
-Lá vem ele! Será que é o de seis vagões? Tomara que sim, daí eu fico menos prensado, levo menos “encoxada” e não amassam tanto o ovão na marmita que a Natália fez pra mim. Porra! Tô atrasado mesmo, quando chegar no trampo vou tomar uma “ensaboada”!
-Caralho! Não acredito! Consegui sentar!...Era bom demais pra ser verdade, lá vem uma grávida e todo mundo fingindo dormir. Mas eu não vou não, afinal minha pequena tá grávida também...Senta aqui, moça!
-Dá um amendoim aí garoto! Tô sem café e a boca tá amarga da cerva de ontem! (filho da puta do Carlinhos me fez beber até as onze!)
-Que sono da porra! Vou cochilar em pé mesmo...   ...    ...
-Fica esperto aí, parceiro...”Tamo” no Brás!
-Tô com uma fome...não vejo a hora de chegar no “trampo” e tomar um café com o Zezinho! Será que ele trouxe a camisa do Tricolor que eu encomendei? Aquele porra falou que é pirata, mas é quase original... sei lá!
-Putz! agora que lembrei...amanhã vou ter que faltar...será que o dentista dá atestado do dia?


Marcelo 

 

LITERATURA
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DESEJO
 
Desconstruído em minha cama
Procuro juntar meus cacos
 
E na pior das solidões, desesperado
Faço amor com sua lembrança
 
E desejo em vão sua boca
Que em outra me esqueceu
 
Desconstruído em minha cama
Não consigo me encontrar
 
E me invade a saudade
De momentos não vividos
 
Do abraço que não demos
Do sexo que não fizemos
 
Desconstruído em minha cama
Sem sequer achar meus cacos
 
Deparo-me com a verdade
De que na realidade
 
Seus sussurros e gemidos, idos
Não pertencem mais a mim
 
Marcelo - 18/08/2011